terça-feira, 27 de outubro de 2015

A objeção do Gato

          A Raposa encheu a sua cabeça de besteiras sobre mim, não estou certo? Em minha defesa, por favor, deixe-me apresentar-me: muito prazer, eu sou o Gato (também conhecido como Trapaça em um outro universo criativo, mas não julguem-me por este nome). Sou eu quem decide o que é bom e o que não é neste grupo, se é que posso definir o que somos eu, Protegida e Raposa. Esta última diria que somos uma "família", mas acho uma expressão chula e inadequada.
          Para uma melhor visualização do que sou, em primeiro lugar, não me enxergue exatamente como um gato, apesar de chamarem-me assim e de minha aparência ser igual a tal. Pense em mim como um personagem que existe, mas não é. Uma alegoria, um conjunto específico de infinitos pensamentos que condensou-se em uma única forma, a de um felino, embora possa transformar-me no animal, vegetal, objeto ou o que quer que for necessário.
         Mas falemos da Raposa, aquele demônio em pele de canino. Guarde minhas palavras, leitor, ela é perigosa. Sua insensatez ainda nos custará a vida! Ela está sempre a tentar incentivar Protegida a "seguir seus instintos", além de passar vinte e quatro horas por dia fazendo perguntas tolas como "o fogo queima porque ele está zangado?", "como o Sol anda pelo céu se ele não tem pés?" ou ainda "as estrelas ficam piscando no céu porque ficaram presas lá e agora estão pedindo ajuda?". Ela parece não entender o quão ridícula sua mente é e o quanto nos perturba com sua curiosidade infantil! Não que curiosidade seja um mal, muito pelo contrário, ela mantêm o mundo progredindo, mas o jeito que ela processa as informações ao seu redor é repugnante! Quem pensa nos sentimentos do fogo se ele sequer está vivo! Ele é apenas o resultado de uma reação de combustão, que agita as moléculas a um nível extremo, reduzindo a matéria a cinzas. Não há gritos de raiva ou expressão facial para induzir a pensar que o fogo está "zangado" ou mesmo que possui emoções.
         Toda vez que digo meus pensamentos sobre as linhas de raciocínio da Raposa em voz alta, Protegida a defende. Diz que ela só tem "um jeitinho diferente de ver as coisas" e pede para eu ser um pouco mais empático. Eu, no entanto, me recuso a deixar tais vergonhosos pensamentos entrarem em mim. Como disse, não passo de pensamentos condensados e não estou interessado em cometer suicídio. Ela diz que eu provavelmente me tornaria ainda mais inteligente se tentasse compreender seu ponto de vista mas creio que não vale a pena arriscar, Tenho consciência de que não sei de tudo, mas não quero pôr a perder tudo o que eu sei por refletir sobre aquelas perguntas.
         Por falar na Protegida, ela tem uma história estranha. Não se lembra de nada antes de chegar aqui, ou, pelo menos, foi isso o que ela nos disse. Mesmo sendo um de seus Guardiões, não sei muito sobre ela, nem idade, nem família, nem nome. A menina tem muitos segredos... Mas quem sabe, você, querido leitor, não possa ser o sortudo que terá acesso à sua história? Ela tem pensado em escrever um diário recentemente e, se o projeto for para frente, por favor, conte-me tudo depois, sim?
         Aqui fica a tentativa do Gato de consertar a mancha feita por uma Raposa burra em sua imagem.
         Em anexo, segue uma foto fofinha de mim para ter certeza de que você não pensará em mim como um vilão..