domingo, 22 de março de 2020

Cinco anos depois

      Olha só, o que temos aqui? Meu antigo diário que o meu lindo protetor Gato escondeu no telhado da casa da Dona Esmeralda.
      E eu que por tanto tempo me culpei por tê-lo perdido por ser desorganizada.
      Mas tudo bem, vamos tentar isso de novo e com menos erros de digitação, dessa vez. Pelo menos só mais uma vez pra tentar clarear essa bagunça.
      Olá, diário, meu nome é Peregrina. Não, eu não sou um alienígena que se apoderou do corpo de uma menina americana (há muito tempo redescobri a sétima arte e assisti a esta obra recentemente. É melhor do que estava esperando), eu sou uma estudante das artes ocultas que ainda continua procurando por sua identidade.
      Da última vez que estive no Alasca, era uma criança assustada que encontrou uma velha, porém jovem, bruxa que era a... personificação do caos com um toque de bondade? É, é uma boa descrição pra Íris.
      Bom, por algum tempo fui sua aprendiz. Aprendi a canalizar minha energia através dos elementos da natureza, primordiais e derivados, e criei dois protetores para mim: a Raposa e o Gato.
      Mas, como eu, mesmo que eu tente constantemente transcender a mim mesma, continuo a ser um espírito humano em um corpo humano em uma realidade humana, os fiz a partir de questões internas minhas que me assolam até hoje: o Gato ficou com meu medo diante do que não consigo racionalmente explicar e a Raposa ficou com minha vergonha de enxergar minha vulnerabilidade. 
      O interessante é que eles mesmos desenvolveram suas próprias estratégias para lidar com minhas projeções, que agora eram seus próprios problemas. E foi aprendendo essas estratégias com eles que eu consegui me proteger.
      Talvez não da melhor maneira, no início.
      Para esquecer do desconhecido, ao Gato se apegava ao que conhecia e anulava completamente o que estava fora de seu alcance intelectual. A subjetividade assustava o Gato, por isso ele era aquele ser cínico e esnobe, porém altamente inteligente em questões objetivas. 
      Já a Raposa aprendeu a se aceitar e se amar mesmo com seu pelo permanentemente bagunçado e seus dentes sujos enormes. Ela lutava dia após dia contra o bullying do Gato (que, no final, era um reflexo do quão autodestrutiva eu era, já que os dois são parte de mim) e se dedicava muito em contruir uma visão mais positiva de si mesma. Por isso era tão avoada e inatrospectiva, ela precisava ignorar muitos fatores externos para que pudesse ser feliz internamente.
      Mas isso já faz cinco anos. Desde que Íris me disse que eu só conseguiria me achar quando seguisse um caminho criado por mim mesma não por outro alguém, nem mesmo ela, eu me sinto diferente. Acho ela me treinou para que eu deixasse de ser como uma criada e fazer o que eu realmente queria fazer na minha vida, que foi o que ela me disse no dia em que nos conhecemos.
     Passei um tempo na casa de Dona Esmeralda, como já escrevi tantas vezes aqui, para relatar nesse diário tudo o que aconteceu para organizar minha cabeça antes de decidir para onde ir. No final, eu o perdi e desanimei de escrever. Então me organizei mentalmente mesmo, com meu Gato e minha Raposa, e fui embora do Alasca, diretamente para o meio do Oceano Atlântico.
      Passei muito tempo adormecida por ali, enfrentando outras batalhas entre mim e eu mesma, antes de acordar e quase me afogar. Depois, fui para o Brasil, uma terra estranhamente familiar. Fui para a capital fria de Minas Gerais, onde aprendi sobre família em meio aos ventos gelados de Belo Horizonte. Depois, Brasília, onde comecei a reconhecer os limites da gentileza. Para o Paraná, Paraguai, Argentina até conseguir finalmente usufruir do litoral carioca e toda sua vida.
      Decidi voltar para cá depois de uma conversa para ver de onde comecei, e, bem, achei você, diário.
      Devo te dizer que minha jornada me mudou, assim como mudou a Raposa e o Gato. 
      O Gato, que antes era um enorme e esbelto gato preto, se apresenta agora na forma de um pequeno filhote. Com o tempo, seu medo do desconhecido foi se transformando em curiosidade e ele foi ficando cada vez mais jovem. Antes, ele fazia alongados e pomposos discursos sobre o que era e o que não era com toda a certeza do mundo, mas hoje em dia esses discursos estão muito mais informais e sempre termina dando origem a perguntas. Ele parece mais focado em tentar entender como o mundo funciona do que se colocar acima dele.
      Ah, e é muito mais fácil fazer carinho nele agora! 
      Quanto a Raposa, minha Deusa, ela está linda! Ela cresceu. Muito. Deve estar com três vezes a altura de uma raposa normal (eu consigo deitar nela!). Seu pelo agora é brilhoso e sedoso (eu amo deitar nela), seus dentes continuam enormes e amarelados, mas agora cabem em sua boca, que é bem maior agora. Sua introspecção começou a se mostrar um linda fonte de criatividade e é assim que conseguimos vencer nossas dificuldades. Ela está sempre do meu lado, me fazendo enxergar a força do amor, principalmente o próprio, e me dando soluções divertidas para minhas dificuldades (isso me energiza tanto!).
      Eu já disse que ela é um ótimo travesseiro também?
      Quanto ao lobo, por incrível que pareça, eu o vejo de vez em quando. Ele continua sempre mantendo uma certa distância de mim, mas deixa que eu chegue perto uma vez ou outra. Já curei outros machucados seus outras vezes, mas no geral, não sei dizer quem ele é ou porque continua a aparecer no meu caminho.
      Acho que isso só o tempo dirá. 
      Ou não.
      Se nem o Gato diz que sabe, como é que eu vou saber?
      Acho que vou levá-lo comigo, diário. Talvez eu anime em contar partes da minha história que planejei relatar, mas não relatei aqui (ou talvez meu Gato ou minha Raposa queiram fazer isso por mim) ou então alguma coisa do tempo presente precise ser escrita aqui por algum motivo.

       Até um dia.


       Peregrina.