segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Lembranças

Minha mãe diz que tenho olhos de
Esmeralda, esmeralda

As palavras de uma música antiga que sei a letra de cor. Eu era muito pequena, não sei como ainda me lembro...

Minha mãe diz que meus são
Como as penas de um maracanã
Como a mata brilhante sob a luz da manhã 
 
Eu amava a floresta. As florestas. Lembro de ter nomeado todas as plantas que conseguia reconhecer, desde as árvores mais altas até a menor das ervas. Minha mãe dizia que isso era sinal de que eu poderia ter talento pra ser curandeira um dia. Nosso clã cultivava magia tradicional e perceber inclinações naturais era útil para a iniciação mágica das crianças.

Fala meu pai que meu cabelo é
Como as ondas lá do mar
Fala meu pai que carrego em mim
Proteção de Oxum e Yemanjá
Que seus cantos sempre vão me guiar

Eu não tinha um pai biológico, mas eu tinha um pai adotivo. Ele era babalorixá. Junto com minha mãe, especulava sobre meu futuro. Segundo ele, eu tinha mãos de feiticeira e poderia conquistar o que quisesse se soubesse o que estava fazendo.

Eu sou toda uma história ancestral
Que vai da terra ao plano astral
Todos que passaram pelo meu jardim
Hoje também fazem parte de mim 

Espero que eu também seja parte deles...

Minha avó diz que fui feita pra
Viajar e explorar
Minha avó diz que meu caminhar
A novas terras vai me levar
E meus pés vão dançar sob a luz do luar

Nós nunca passávamos muito tempo no mesmo lugar. Estávamos sempre na estrada, indo de país a país, de continente a continente, às vezes bem recebidos e às vezes não.

Muitas das vezes não.

Minhas avós (que também não eram avós biológicas, mas de consideração) não me deixavam andar sozinha fora do acampamento com medo do que os que não eram dos nossos poderiam fazer comigo.

Meu amor fala pra eu não parar
De tentar alcançar
Os sonhos que fazem minha alma cantar
Que os bons ventos vão me ajudar
A chegar aonde preciso estar

Essa parte era mais uma manifestação para o futuro, eu não tinha um relacionamento romântico com ninguém naquela idade, mas eu via os mais velhos da minha comunidade fazendo suas declarações e queria isso pra mim no futuro.

Eu sou toda uma história ancestral
Que vai da terra ao plano astral
Todos que passaram pelo meu jardim
Hoje também fazem parte de mim 

A música era animada e eu dançava na grama com outras crianças ao redor de fogueiras nas épocas frias e na chuva nas épocas quentes.

Era a felicidade em vida que a Igreja prometia em morte

Queria ter me tornado a feiticeira curandeira que minha mãe e meu pai achavam que eu seria. Gostaria de ter aprendido com minhas avós e dançado com meu amor.

Meu clã era minha família e com eles eu pertencia, até um grupo de fiéis passar por nós e decidir que não. 

Lembro de que nos chamaram de bruxos malditos que mereciam o inferno. Atearam fogo em algumas coisa, uma tenda ou uma mesa de comida, e uma mulher pegou minha mão e me levou.

Eu não gritei.

Eu não tentei fugir.

Eu só fui com ela para onde ela quis me levar: a Igreja.

Reprimo essas lembranças há anos por serem obviamente dolorosas, mas Raposa fez bem em me trazer aqui. Esse passado, essa ferida, faz parte de mim e só vou poder curá-la se estiver frente a frente com ela.

Hoje eu dei um passo, diário. Pequeno, mas foi um passo. Reconheci do que estava fugindo, mesmo que fizesse meu peito arder.

Eu conto isso como uma vitória.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Diário da Peregrina - Lunna e Kitty #4

Oi, diário, sentiu minha falta?

Depois de 21 dias, voltei a ser só eu, Peregrina. Gostaria de dizer que estou bem, mas só me sinto confusa. Espero que escrever em você me ajude a entender o que estou sentindo agora.

Ser Lunna era divertido. Eu me sentia confiante, poderosa e linda, como uma deusa antiga há muito tempo presa que encontrou sua liberdade. Mas todo esse poder tinha um preço que nunca valeria a pena pagar.

Estar vulnerável é uma necessidade humana, para o bem ou para o mal. Perder a habilidade de baixar a guarda torna qualquer um num monstro, que foi o que eu me tornei. Raposa mostrou a Lunna seu verdadeiro reflexo e Gatinho se separou de mim assim que o viu. Disse que eu e Raposa deveriamos passar um tempo juntas e assim, nos tornamos um ser cujo único conhecimento era seu nome: Kitty.

Um nome estranho pra uma humana e uma Raposa, mas era nossa única certeza. Minha teoria é que vem de Kitsune, que é raposa em japonês. Existem lendas japonesas antigas sobre raposas com várias caudas que se disfarçavam de mulheres para enganar pessoas. Faria sentido, mas é só uma teoria (uma teoria bem embasada, obrigada por ler).

Nesses últimos 15 dias, eu e Raposa passamos manhã e noite tentando entender quem era Kitty. Eu não me sentia como outra pessoa como quando era Lunna, só me sentia eu mesma junto da minha melhor amiga, com o detalhe de estarmos dividindo um corpo com orelhas e cauda de raposa e um cabelo de 2 metros de comprimento (pesava, mas era macio!)

Nós trabalhávamos muito bem juntas. Não tínhamos problemas para nos mexer, comer, dormir e nem fazer necessidades fisiológicas. Me pergunto se é assim que gêmeas siamesas vivem, duas pessoas trabalhando juntas para administrar um corpo que é a casa conjunta das duas.

Mas Kitty, ao contrário da imponente Lunna, era estranhamente neutra. Nada para ela parecia especial ou particularmente interessante. Ela existia no mundo, mas o mundo parecia não existir nela. Ser Kitty era como usar uma máscara e não impersonar ninguém. Um disfarce perpétuo para se esconder de si mesma.

Então eu propus à Raposa uma bateria de testes para ver se esse disfarce caía. Senti ela tímida num primeiro momento, mas depois se animou e aceitou.

Nossa primeira e única experiência foi música. Escolhemos esse assunto porque era o único que tínhamos uma certa variedade (achei essa relíquea "MP4" enquanto estava no Saara, Rio de Janeiro e ficamos ouvindo numa noite na tenda) já que não temos o luxo de ter comida de verdade e outras roupas a não ser nosso kimono rosa (o top, minha calça e meu colete que voltei a usar quando nos separamos. Eu tinha mais roupas, mas as peças foram sendo destruídas aos poucos por esse maldito deserto).

Anotei em outro caderno (não tão importante quanto você, diário, não se preocupe) os resultados: 
Tudo estava indo bem até a gente ouvir Defying Gravity da Idina Menzel e da Kristin Chenoweth. Raposa se emocionou com a música, principalmente por ser um dueto, e eu a acompanhei. Fizemos tudo na tenda flutuar, foi literalmente mágico. Na parte em que a Elphaba convida a Glinda para ir com ela, então, nós mesmas começamos a flutuar. Era como se a Raposa estivesse cantando pra mim, Peregrina.

Foi aí que eu vi que isso não ia acabar bem.

Glinda rejeita a oferta de Elphaba logo depois de cantar o refrão com ela. As duas decidem seguir caminhos separados no musical e eu senti quando o baque veio em Raposa.

Eu vi as memórias. Abandono, rejeição, invalidação, inferiorização... Ela nunca desistiu de mim, mas também nunca conversamos sobre o quanto ela sofreu.

E eu nunca tive a chance de pedir desculpas.

Foi então que deixamos de ser um "nós" e nos tornamos um "eu". Foi então que o mundo passou a existir em Kitty.

Completamos a fusão.

E doeu.

Ser Kitty em sua completude foi como ser do tamanho do mundo e estar em uma lata de ervilha.

Aterrorizada, sufocada, presa. 

Era ser um arco-íris em uma realidade em preto e branco.

Excluída, solitária, louca.

Era lutar para não ser vista como uma ameaça por causa de um universo que não me acopla!

Embalada pelo final glorioso da música, comecei a sentir uma força desconunal saindo do meu peito. Pela abertura da tenda, via o Oásis sumimdo em uma luz verde brilhante e então voltando. Sumindo e voltando, sumindo e voltando, até que a o último acorde da música estourou e eu também.

Acordei ainda dentro da tenda como Peregrina e vi Raposa numa forma pequena e desgranhada do lado de fora contrastando com uma mata verde e densa de uma floresta.

O último lugar que eu queria vir.

Acho que eu gritei de raiva. Ou de medo. Meus olhos ainda estão ardendo um pouco de tanto que chorei. Raposa deve estar achando que estou zangada com ela ou que estarmos na floresta é culpa dela, mas eu quis vir aqui tanto quanto ela.

Depois de contar a história toda, está claro o que preciso fazer:

Preciso encarar a mim mesma.