quarta-feira, 4 de março de 2026

O chamado da floresta

Desculpe o sumiço novamente, diário.

As coisas não têm sido fáceis depois que o Gato se foi. Só agora tive a coragem de abrir você de novo e acabei de encontrar a despedida dele aqui. Desculpe por te molhar com as minhas lágrimas.

Sobre o que ele mencionou em seus últimos momentos que eu fiz... Eu finalmente explorei a floresta. 

Eu vi as árvores enormes com frutos pesados que também eram casa para diversas trepadeiras e vários tipos de musgo. Eu vi a mata rasteira cujas flores alimentam os pequenos insetos e troncos mortos que alimentavam cogumelos que cresciam em escadinhas na madeira podre. Vi araras, capivaras, onças e macacos, mas sempre de longe, respeitando o espaço de todos eles. Senti o frio do ar úmido cujo sol fica preso na abóbada verde acima de mim, cujas folhas cintilam mais do que estrelas toda vez que o vento sopra.

Eu senti seu respirar. Eu escutei suas palavras. Eu escutei os segredos das sementes e das flores. Eu aceitei seu chamado e fiz dela meu lar.

Então eu encontrei a Cachoeira.

Tirei meus sapatos para aliviar meus pés cansados de andar sobre terra e raizes, deixando o som da água acalmar fazer parte de mim enquanto o rio abaixo corria devagar. Mergulhanda em minha solidão pacífica (deixei Raposa dormindo na tenda), estava admirando a mata ciliar ao meu redor quando o avistei.

Da mata do outro lado do rio surgiu um homem, abraçado ao corpo de um gatinho, que se ajoelhou às suas margens. Dando um abraço no felino, ele o colocou sobre as águas, que a abraçaram como uma criança que voltara para os braços da mãe. O gatinho se desfez em luz e ele escondeu o rosto nas mãos.

Senti um ímpeto de atravessar o rio para consolá-lo, mas quando desviei o olhar por um momento para me levantar, ele não estava mais lá.

"Você encontrou outra pessoa?", Raposa se surpreendeu com a informação quando recontei o acontecimento ao voltar para a tenda. "Há anos eu não vejo outro humano além de você!"

Ao apontar tal fato, me conscientizei de minha própria solitude. Por quanto tempo eu fiquei apenas com Raposa e Gato naquele deserto? E há quantos anos eu estou nessa floresta apenas na companhia deles? Não sei a resposta para ambas as perguntas, mas sei que nunca me senti só. Talvez eu estivesse muito ocupada tentando me encontrar para sentir a falta de alguém.

"Eu posso ir ver ele também?", Raposa me pediu com os olhos brilhando como uma criança. 

Minha vontade inicial era imediatamente confirmar, mas senti um medo me invadir e hesitei por um momento. Foi então que me dei conta que nenhum outro humano a não ser Íris, a bruxa que conheci no Ártico, havia conhecido minhas companhias espirituais. Eu sequer tinha uma referência de como outra pessoa poderia reagir a algo assim.

De qualquer forma, respondi "claro, por quê não?", o que deixou Raposa pulando de alegria.

Deitamos para dormir e logo ao acordar fomos à cachoeira, que permanecia tão formosa quanto a primeira vez que a vi. Sentamos à beira do rio e esperamos, mas em nenhum momento vimos sinal do homem de antes.

Todo o tempo, eu observava a mata do outro lado. Sentia que algo na escuridão me observava de volta, sussurrando segredos milenares que por pouco eu não conseguia ouvir.

"O que tem do outro lado?", Raposa me perguntou, deitada na lama sob o sol.

"Eu também quero saber", respondi. "Mas não sei se é seguro atravessar o rio".

"Por quê você não pergunta?", ela virou a cabeça para o lado, como se fosse uma ideia óbvia.

Ponderei por um momento, cogitando apenas voltar para a tenda, quando uma garça veio voando e pousou bem no meio do rio, flutuando sobre as águas. Imediatamente a r conheci. Era a Garça que me guia ao meu destino. A Garça da qual fugia há mais tempo do que eu deveria.

Seus olhos tenebrosos vidravam minha alma e eu senti meu estômago revirar. Cada centímetro do meu corpo implorava para que eu voltasse para a tenda naquele instante.

Mas algo me dizia que se eu fosse embora naquele momento, nunca mais veria aquele homem ou conheceria o outro lado da floresta.

"Me espere aqui", disse à Raposa enquanto me levantava e seguia a trilha de pedras que levava para o topo da cachoeira.

Uma vez no cume, encarei a Garça de volta, com meu coração em chamas. Chega de fugir. Chega de ser refém do medo. 

Então eu mergulhei no rio.

Foi doloroso atingir o leito, mas o que veio em seguida foi pior. Uma pressão descomunal atingiu meu peito e me empurrou em direção ao fundo. A luz da superfície sumiu e fui atingida por uma corrente que ne fez girar. Eu não sabia mais qual direção me levaria para cima e qual me levaria às profundezas daquele rio. Estava escuro e frio. Meu corpo doía e meus pulmões gritavam por ar.

Um corpo surgiu na minha frente, a qual várias mãos esquias agarravam os membros e a deixavam estável na água. Quando me aproximei, vi que era eu!

Meus olhos estavam apagados, a expressão neutra e meu corpo imóvel. Percebi que as mãos diziam palavras em uma língua que eu não entendia, mas que pareciam ter um efeito entorpecedor na outra Peregrina.

Toquei em seu rosto, sentindo um profundo pesar. Ela não merecia isso. Ela não merecia estar aqui nesse estado.

"Faça o feitiço", ouvi a água murmurar.

Que feitiço? Eu não sei. Há anos não faço um feitiço. Se não fosse pela Raposa, eu nem acreditaria que eu um dia produzi magia na vida.

"Faça o feitiço", a água insistiu.

Tentei soltar o corpo de Peregrina dos braços, desatracando uma mão por vez. Elas não resistiram e, uma vez soltas, se retraíram para baixo, para onde eu assumi que fosse o fundo do rio. Peguei a mim mesma nos braços e o levei para a direção oposta, a direção que seus olhos vazios apontavam, e nadei para a superfície.

Mas ao invés da cachoeira e do rio, nos encontramos em mar aberto, em meio a uma tempestade enfurecida. A luz voltou aos olhos do corpo em meus braços e ela arfou, mas água cinzenta crescia em ondas que nos levavam para cima e para baixo tão violentamente que não demorou muito até uma delas nos submergir novamente. 

Imediatamente, as mesmas mãos voltaram e agarraram a outra eu, levando-a para baixo com rapidez. Fui atrás, os braços e pernas doendo tentando acompanhar a velocidade dos membros, mas era impossível. Atravessei a escuridão e o frio novamente, sozinha, até encontrar Peregrina no mesmo estado de antes, a água vibrando em uma língua desconhecida ao seu redor.

"Faça o feitiço", a água repetiu no mesmo tom.

Que feitiço?! Eu só queria chorar.

"Faça o feitiço"

Então eu abracei a outra eu com toda a força que eu tinha.

"Eu te amo", sussurrei agarrada nela com os olhos fechados.

Imagens começaram a passar pelos meus olhos. A floresta. Uma praia. Uma cadeia de montanhas. Quatro pessoas que eu não conhecia, mas me pareciam familiares. Momentos felizes que eu não lembro de ter vivido. Momentos tristes que lembro de ter sentido. Um violão e um cachorro branco. Um rosto de um homem bonito. Uma gata preta e branca...

Até que senti Peregrina me abraçar de volta. 

Abri meus olhos e me vi em um recife de corais multicolorido. A água estava límpida e iluminada. Ao fundo, ouvia o som de uma baleia. Soltei a outra eu e me deparei com uma sereia de olhos brilhantes. Ela sorriu para mim e nadou para longe com sua cauda reluzente. Olhei para as minhas próprias pernas e em seguida nadei em direção ao sol.

Emergi na outra margem do rio e fui saudada por um rosto familiar. Era o homem!

"Você é uma deusa?", ele me perguntou.

Abri a boca para responder que não, mas me peguei refletindo sobre a pergunta.

"Eu... Sou muitas coisas", foi o que me percebi dizendo. "E também não sou mais o que eu era antes."

Ficamos em silêncio por algum tempo até eu decidir quebrá-lo.

"Por que você está aqui?"

"Eu acabei de perder minha melhor amiga", ele olhava para as águas. "Estou sozinho agora. Vir aqui acalenta meu coração."

"Sinto muito", afundei um pouco na água. "Eu também perdi meu gatinho... Mas acho que não é a mesma coisa."

"Agradeço a empatia", ele deu um sorriso tímido. "Você tem um nome?"

"Não!", soltei uma risada inapropriada. "E você?"

"Eu também não!", ele se iluminou inesperadamente. "Mas me chamam de O Arauto."

"Quem te chama?", será que tinham mais pessoas do outro lado?

"Eu não me lembro", ele pinçou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. "Mas e você? Te chamam de alguma coisa?"

"Eu me chamava de Peregrina", sentei ao lado dele na margem. "Mas não sou mais ela."

"E quem você é agora?"

"Eu ainda não sei..."

Olhei ao redor, para as copas das árvores decoradas por nuvens brancas no céu azul e a cachoeira alimentando o rio que descia até o horizonte. Raposa estava do outro lado, dormindo. A Garça havia ido embora.

"Feiticeira", a palavra escapuliu da minha boca e um sorriso começou a surgir quando ouvi o que acabara de dizer. "Eu sou Feiticeira."

"Você se achou tão rápido!", Arauto parecia encantado. "Quando eu posso te ver de novo?"

"Podemos nos encontrar aqui sempre quando o dia nascer", e assim foi.

Nos encontramos por vários amanheceres. Raposa o conheceu e eles se adoraram, embora às vezes ele fique um pouco sobrecarregado com seu jeitinho animado. Ele me mostrou onde vivia, em uma gruta não muito longe da cachoeira. Passamos a frequentar seu lar todos os dias até que achamos mais conveniente eu levar minha tenda para o outro lado do rio e nos poupar a viagem. 

A mata do outro lado conversa comigo sempre. É tão fácil estar naquele lugar. Ervas mostram seus talentos e arbustos comunicam o que precisam para dar frutos.

Sinto falta do Gato, mas ter Arauto comigo atenua essa dor. Acho que ele sente o mesmo em relação a mim. Nós gostamos de cozinhar juntos, conversamos com frequência e até dormimos um no abrigo do outro. É uma pena que às vezes ele só some e quando isso acontece sempre chove... e sombras começam a correr no fundo da gruta dele.

 Mas ele sempre volta, uma hora ou outra. 

Estou escrevendo isso na porta da gruta esperando ele voltar, inclusive. Minha tenda despencou com o vento e o fundo da gruta está abarrotado de sombras. Tenho medo de ir lá, então estou apenas na porta, me protegendo da água. Está caindo um toró e Raposa está brincando de caçar pingos de chuva.

Ah, ele acabou de voltar!

Até um dia, diário!