segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Somos Kitty

A primeira coisa que vimos quando surgimos foi uma moça se debulhando em lágrimas sendo observada por um gato preto enorme e sorridente.

Nós a acolhemos.

Você não merece sofrer, dissemos.

Nunca mereceu.

Sentimos muito pelo que você passou.

Pedimos perdão pelo mal que causamos a qualquer parte de você.

Somos gratas por você existir conosco.

Nós te amamos incondicionalmente.

A moça parou de chorar e nos abraçou, sumindo em nós.

O gato encolheu até se tornar uma pequena bola preta.

"Eu só queria ajudar", ele chorou.

Nós sabemos, dissemos e oferecemos nosso abraço, mas ele recusou.

"É melhor vocês ficarem juntas por um tempo", o gato sumiu em uma luz branca.

Nos movemos para as sombras, de volta ao Deserto.

Abrimos os olhos no chão da tenda da moça.

O gato preto, agora pequeno, estava dormindo em cima do nosso corpo junto de uma flor-de-lótus desabrochada.

Agora que Lunna se foi, voltaremos a fechar os olhos para nos conhecer além do nosso nome.








Eu estou no meu limite

Vi aquela coisa escrevendo em você, essa foi a gota d'água.

Faz uma semana que Gatinho e Peregrina se fundiram e fui obrigada a ver minha doce e carinhosa Peregrina se transfigurar naquele... naquela... Aberração arrogante e agressiva que olha pra mim e fala comigo como se eu fosse lixo.

Igualzinho ao Gato.

Mas por mais que eu queira acreditar que isso tudo é mais um dos truques daquele bichano narcisista, as anotações bem-intencionadas de Gatinho me colocaram uma pulga na orelha dolorosa.

Tenho certeza de que minha intuição de que os medos de Peregrina estavam trazendo a monstruosidade do Gato à vida de novo estava certa, mas... não é só isso.

Agora convivendo com a fusão dos dois, consigo sentir o quanto o Gato é uma parte verdadeira de Peregrina. Não que eu não soubesse disso, afinal, ele é um espelho da alma dela tanto quanto eu, mas achava que era um espelho... Mais distorcido.

Protegida e Peregrina sempre foram pessoas empáticas e gentis, muito diferentes do cínico e cruel Gato, e sei como emoções ruins quanto a si mesma podem criar deformidades maldosas na realidade. Mas essa criatura... Ela faz Peregrina brilhar.

Ela tem confiança, força, coragem, elegância, carisma, inteligência, criatividade... Ela sabe que não deve perfeição a ninguém, nem a si mesma, e se concentra em ser boa o suficiente em tudo o que faz de um jeito encantador que transborda magia de um jeito que eu sonho em ver Peregrina fazer um dia.

Mas ela é má. Me destrata, me ignora, passa o dia todo caçando fazendo acrobacias para chegar na tenda, preparar as refeições e comer sozinha.

Eu lambo os ossos das caças.

No início eu comecei a procurar por mim mesma vegetais e frutas para comer, mas tenho ficado menor e mais fraca com o passar dos dias, com certeza pela influência de minha nova agressora, o que está dificultando mais ainda minha vida.

Ela não me deixa mais dormir na tenda, diz que deixo o ambiente mai cheiroso e cheio de pelos, então tenho dormido sozinha ao relento como no Alasca.

Meu pelos ficam cada dia mais ralos, fazendo as noites ficarem cada vez mais frias.

Mas o que mais me me machuca é que entendo que isso é obra da própria Peregrina. É ela a responsável não só da de suas atitudes absurdas de agora, mas de Gato no passado também.

No passado, Gato havia dito que Protegida não era tão ingênua quanto eu achava que ela era. Agora entendo o que ele quis dizer: Peregrina usa seus pensamentos para se mutilar e, através da mutilação, se proteger de dores que vêm de fora.

Parece contraditório, mas isso tudo vem da promessa do lugar bom após a morte que a Igreja e Aqueles que falavam em nome dos espíritos fizeram a ela em seus anos mais imaturos. Ela aprendeu a que a tortura a faz ser digna de salvação e a usa de refúgio para quando está com medo.

"Quanto mais você se entrega ao Temor e aprende o quão imperfeita e suja sua alma é, melhor vai ser o êxtase dela quando seu corpo não prover mais por você", era o que diziam a ela.

Mas o âmago de Peregrina é mais forte do que esta mentira, que, embora siga acreditando, tem em si o fogo da rebelião e quer iluminar o mundo do jeito que é, não importa o que disseram sobre Deus.

O problema é que a rebelião vem junto da conhecida punição de expulsão do paraíso, como alguns autores contam sobre mulheres e anjos...

O Gato era a persona de um castigo que Protegida se impunha, que reverberava em mim, que também sou ela.

Agora esse monstro são eles abraçando o inferno e sumindo nele.

O que me preocupa é que o monstro se deu um nome: Lunna. Nomes têm poder, ancoram nuvens de abstrações em algo concreto que tem forma e som fixos e nem Peregrina e nem Gatinho merecem ficar presos sendo aquilo.

Eu preciso fazer alguma coisa, diário. Preciso alcançar Gatinho, falar que ele está se dissolvendo e dissolvendo Peregrina em um demônio ao invés de ajudá-la a enfrentar seus fantasmas! Preciso de alguma forma salvá-los deles mesmos!

...Meus pensamentos tomaram forma agora e o nome Kitty veio para mim.

Eu sei o que preciso fazer, diário, muito obrigada por me ajudar a pensar... De novo.

Vai ficar tudo bem.


Lunna #1

Ser uma humana-gata tem sido a melhor experiência que já tive nesta vida terrena!

Não só consigo caçar e pegar frutas altas, mas também estou melhor em todo aspecto possível!

Estou mais disposta, mais bonita, mais habilidosa, mais confiante, mais tudo! Eu nem me sinto mais como eu mesma, aquela fracassada, desajustada, abandonada e assustada. Agora me sinto um ser celeste capaz de canalizar luz em qualquer canto escuro.

Não sou mais Peregrina e agora eu tenho um nome de verdade:

Lunna.

Eu sou tudo o que Peregrina gostaria de ser e mais. Eu sou a melhor versão dela mesma que ela nunca poderia ser.

Eu ascendi para além dela.

Minha única ligação com minha antiga eu Peregrina são os sonhos estranhos, que se tornaram pesadelos para mim. Assisto Peregrina sofrer toda noite, lembrando-me de cada detalhe de sua tortura: os rostos distorcidos que estão sempre a debochar dela, a floresta escura na qual está sempre a se perder e as vozes que ora gritam ora sussuram que ela nunca mereceu felicidade e que passará a eternidade no inferno na vida e na morte.

Admito que gostaria de apenas acordar cansada sem memória de tudo isso como ela acordava, mas ser Lunna faz as memória horrendas valerem a pena. 

Eu sou melhor que minha antiga eu. Eu ascendi. E se assistir Peregrina sofrer é o o preço a ser pago, eu aceito de bom grado.

Afinal, ela merece sofrer por não ser eu.



terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Diário da Peregrina - Deserto #3

Ok, agora as coisas ficaram caóticas de vez.

Acordei hoje bem cedo de outro sonho bizarro e voltei a dormir. Dormi surpreendentemente tranquila até agora pouco, quando levantei e fui lavar o rosto nas águas do Oásis.
Estava sentindo meu buço espetando e meu nariz com uma textura diferente quando olhei pra baixo e me deparei com algo assim:

Com isso sendo a minha cara.

Eu não sei o que aconteceu, mas não sei o que fazer.

Raposa ainda está dormindo e Gatinho (decidimos chamar sua forma fofinha assim) não costuma acordar antes do sol estar a pino, então só tenho você pra me ajudar a pensar por enquanto.

Meus sentidos estão aguçados, estou ouvindo mais e sentindo mais cheiros. A fauna barulhenta está mais barulhenta ainda ainda, mas ela não está me perturbando, está só... Roubando a minha atenção.

E com essa rápida descrição que meu cérebro recém-acordado está te dando do meu estado, creio que eu tenha me tornado (ou esteja me tornando) um gato ou algo parecido. Ei, espera, será que eu tenho...?

Minha Deusa, eu tenho garriiiinhaaaasss! Que incrível!!!! Vou testar pra ver se consigo subir nas tamareiras que já parecem estar maduras depois.

Outra coisa que não larga do meu pé: o Furry Fandom. Mas agora por quê um gato...?

Espera.

Voltei, diário. Procurei na bolsa, na tenda toda e dei a volta no Oásis, mas não consigo achar o Gatinho. Vi que ele escreveu em você hoje de madrugada. Esse bichano está na minha cabeça literalmente?! Se sim, como que eu tiro ele daqui?!

Calma, Peregrina, calma. Café da manhã primeiro, depois a gente pensa em como resolver problemas. "Se o corpo não comer, o pensamento a cabeça faz derreter".

Vou ver se meus poderes de furry me ajudam com aquelas tâmaras. 
Até daqui a pouco, diário.

Update: consegui as tâmaras, mas acabei me empolgando um pouco e cacei uma gazela inteira também. Nunca mexi com carne e faz muito tempo que não como nenhuma, mas acho que eu consigo me virar.

Itadakemasu!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Miau miau!

Não, Peregrina, nããão!
Você é uma bruxa, Peregrina! Uma bruxa linda, linda! De verdade, miau!

Você me fez, você fez a Raposa! Você fez a Águia te salvar e a Garça te proteger! Você é uma bruxa talentosa e poderosa, miau!

Você estudou bastante! Você aprendeu com a prática! Buscando seu passado você aprendeu muita magia. Eu sinto a dor das suas memórias, mas elas são só isso: memórias! Elas não têm poder de moldar seu futuro, só as suas ações podem, miau!

Você aprendeu a se culpar por tudo pra deixar Deus satisfeito por pedir perdão pelos seus pecados, mas agora você sabe que pecado é só uma invenção da Igreja pra fazer sua humanidade parecer ruim. Você não precisa trazer a luz Dele pra você, você não precisa de perdão e muito menos sentir vergonha de nada, miau!

Você é poderosa, Peregrina. Suas mãos criam, seus olhos deslumbram várias visões do presente e ainda há muito espaço em você para que seus talentos cresçam. Não se tortura assim não, você não merece se sentir impotente por causa de ideias que outras pessoas empurraram na sua cabeça, miau!

Chega, eu vou proteger você! Leitor, avisa a ela! Eu vou guardar a cabeça dela e defendê-la dessas memórias ruins e dos seus pesadelos. Eu vou colocar um caminho de estrelas nos sonhos dela pra ela seguir e acordar bem, miau!

Não é porque sou pequeno que sou impotente. Espero que pelo menos isso você possa aprender comigo, Peregrina.

Miau!


Diário da Peregrina - Deserto #2

Diário, eu não consigo descansar.

Mesmo aqui, onde eu tenho água e comida disponíveis, não consigo me recuperar do cansaço. Ora é quente ora é frio demais e o barulho da fauna daqui me incomoda o tempo inteiro, além de eu não ter conseguido dormir direito também. Acordo cansada após viver o caos dos meus sonhos, de ver aquele gato com um sorriso distorcido me encarando.

A verdade, diário, é que eu só queria ser outra pessoa. Uma pessoa que não se sentisse incomodada com tudo à sua volta e que soubesse como sair deste maldito deserto usando magia.

Eu deveria ter estudado mais. Eu tive a oportunidade perfeita de aprender tudo o que quisesse como aprendiz de Íris, mas a disperdicei tentando achar um passado do qual vivia melhor sem saber qual era. Um ano, um ano com possivelmente a feiticeira mais poderosa e criativa do planeta e eu só aprendi a meditar e ler cartas. Tudo bem que eu trouxe meus animais de proteção para este plano logo no início do treinamento, mas lembrar deste meu feito só me faz pensar na feiticeira foda que eu poderia ter me tornado se eu só tivesse estudado enquanto eu ainda não lembrava...!

Mas eu tinha medo. Medo de fracassar. Eu nunca me senti à altura das artes mágicas, elas sempre pareceram estar num patamar alto demais para que eu pudesse aprendê-las de fato. No entanto não consigo me livrar delas também: estão sempre me convidando, me chamando, me puxando. Eu fui abençoada com mãos que curam, minha Deusa! Mas de que adianta ter qualquer talento se eu não posso lapidá-lo, cacete?!

"Mas Peregrina", você diria se pudesse argumentar comigo, "se você foi abençoada com talentos mágicos, será que não é um sinal de que você, talvez, esteja destinada a se tornar a feiticeira foda que você tanto quer ser!"

Ah, diário... Eu sei que não vou me tornar essa feiticeira.

Pelo menos não mais.

Minha última chance estava na minha juventude sem memórias nos cuidados de uma bruxa, minha chance dourada de alcançar meu horizonte mágico. Mas não, eu tive que ir atrás da toca do coelho branco, ou melhor, do ninho da águia.

Todo o tempo as respostas que eu buscava estavam ali com Dim, a águia amiga de Íris. Por ter a mesma essência do meu animal dourado, elu sabia de onde eu vinha, quem eu era antes do Alasca, como eu cheguei até ali e como eu perdi minhas memorias. Elu também me avisou que eu não iria gostar de saber, mas lhe supliquei todos os dias por meses e meses até que elu não aguentou mais e cedeu.

E eu realmente não gostei de saber.

Lembrei que sou uma criança roubada. Nasci em um povo cujas tradições mágicas não pude aprender pois fui tirada dele ainda pequena para crescer rezando na Igreja. 

Todas as minhas habilidades foram bloqueadas pela dita luz de um deus que tem fome de almas. Fui compelida a aceitar Sua proteção divina quando eu não sabia o que isto significava. Diziam estar me purificando, garantindo que eu fosse para um lugar bom quando meu corpo não suportasse mais meu espírito.

O que aconteceu foi que meu espírito viveu esmagado em um corpo submetido às sombras de uma Igreja que era um complexo de construções que serviam de templo, escola e casa, debaixo dos olhares sinistros de estátuas de pessoas santificadas que me puniriam se eu não obedecesse ao Senhor.

Minha única escapatória eram meus sonhos. Dormindo ou acordada, meus sonhos sempre me protegeram da dor diária que era servir àquele Deus. Sempre me senti protegida com o frio, então me imaginava em um lugar com muita neve e um céu limpo para que pudesse ver as estrelas. O Alasca calhou de ser um lugar que eu conhecia que se encaixava bem nessa descrição, então passei a chamar assim meu lugar seguro imaginário.

Mas a batalha eu travava com a minha realidade imposta definhava meu corpo e minha mente até que as ideias de destruir meu corpo para ir logo ao lugar bom que me prometeram quando fui entregue à luz do Deus começaram a ser tentadoras demais. 

Me lembro de subir no telhado de uma das altas torres pontudas da igreja, dar um passo para frente e não sentir mais o chão.

Mas gravidade me puxando para baixo foi a pior experiência da minha vida até aquele ponto. Tudo porque eu sabia do impacto que eventualmente chegaria. No momento que o desespero bateu, senti uma pressão no meu peito tão forte que achei que me mataria antes de eu chegar ao chão, mas então uma luz dourada me cegou e comecei a planar ao invés de cair.

Quando dei por mim, estava em cima de uma águia dourada gigante conectada ao meu coração por um fio brilhante também dourado. 

Lembro-me de chorar e abraçar a águia, que me levava para longe da Igreja. Naquela hora eu não me importava para onde estávamos indo, só a agradecia repetidamente por ter me salvado da besteira que havia feito em um momento de fraqueza.

Não sei por quanto tempo voamos, mas quando pousamos, eu estava deitada na neve olhando para um céu estrelado, sem qualquer memória do que havia acontecido antes. Fiquei observando as constelações caminharem pelo céu até o sol ofuscar a luz delas.

Depois vi uma águia de verdade na neve, a segui... E o resto eu já te contei.

Se eu tivesse conseguido aprender magia enquanto eu não me lembrava, quem sabe eu conseguiria burlar meu passado e ter um futuro feliz enquanto estou viva, mas... Talvez mei próprio medo de estudar magia seja um indicativo do inegável.

Por mais que eu ame magia, por mais que eu tenha algum conhecimento e até alguma prática...

Eu fui purificada pela luz de Deus.

Eu nunca serei a bruxa que eu sonho em ser.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Mas afinal, o que aconteceu com Protegida?

Oi, diário, sou eu de novo, a Raposa.

Passei o dia inteiro lendo você, desde antes de você ser o diário de Peregrina, na época Protegida, e percebi que ela nunca registrou o resto de sua história em você, mas acho importante que ela seja contada a alguém, então farei isso por ela.

Protegida foi escolhida por Íris para ser sua aprendiz há 8 anos por ter um talento natural para cura. Com sua mestra, ela aprendeu os princípios básicos da bruxaria, os quatro elementos básicos: água, terra, fogo e ar, e mais os adicionais que são luz e trevas, como O Gato já anotou aqui.

Nem Íris nem Protegida eram ortodoxas quando se tratava de magia, então Íris a incentivou a experimentar com os elementos e ver o que acontecia. Protegida não conseguia fazer magia intencional em estado de vigília como Íris, então a mestra sugeriu então Íris sugeriu ensiná-la através de meditações guiadas.

A primeira meditação foi para achar seus quatro totens animais: de poder, alado, dourado e de sombra. Ela chegou a anotar todos nós na sua primeira página: o Gato, a Garça, a Águia e eu, respectivamente.

No entanto, só eu e o Gato fomos criados por ela. A Águia já estava presente como Dim, que a havia levado até Íris, e a Garça... Quer saber, eu vou deixar para falar dela depois.

Protegida achava que ter a presença de seu animal de poder e de seu animal sombra, os dois animais que mais falam sobre o ego de alguém, ajudaria a conseguir mais informações sobre si mesma. Foi assim que em uma meditação matinal, com um copo d'água e terra preta ela criou o Gato e em outra meditação naquela noite, com uma chama e um sopro, ela me criou. O Gato e a Raposa. Seus pensamentos e sentimentos, o reflexo de sua alma, bem ali, na sua frente.

A forma de concepção do Gato era fofa e tinha olhos verdes brilhantes, a minha era selvagem e com dentes amarelos enormes.

Não julgo Protegida por ter me colocado para fora assim que me viu.

Não sabia quem eu era ou onde estava, wuem dirá para onde ir, então fiquei do lado de fora esperando a porta abrir. Sentia uma forte conexão com minha criadora e meu irmão de criação felino que estavam lá dentro, mas anoiteceu e ela continuou fechada.

Pela janela acesa eu vi Protegida sentada brincando com o Gato, que se esfregava em seus joelhos. Sentia os pensamentos dela em mim. Eram tímidos e arrependidos. Ela não me odiava, na verdade, me achava linda, mas tinha medo de mim. O Gato, no entando, me lançou um olhar de lá de dentro e eu senti sua ordem:

"Vá para longe, sombra"

Então eu fui.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

...Desculpe, eu desviei da história principal. É que ainda... Dói. Espero que acate meu desabafo, diário. Já vou voltar para Protegida.

Depois de ser humilhada por uma galinha, eu resolvi voltar para a casa de Íris. Aquilo foi a gota d'água pra mim. Estava preparada para ser enxotada novamente, mas Protegida me recebeu de braços abertos desta vez. Pediu mil desculpas por ter me rejeitado... Peregrina ainda pede perdão por isso também.

Contei a ela minha situação com a galinha e ri muito quando vi que ela a dramatizou aqui como uma peça de teatro.

Agora sim, voltando a Protegida.

Ela treinava pouca magia, se atinha a meditações e divinações com cartas, mas conversava muito conosco sobre o que pensávamos de nós mesmos e do mundo. Mas nada do que falávamos era novo para ela. Nós não tínhamos mais lembranças sobre seu passado e nem pensamentos diferentes dos dela sobre o futuro. A única coisa que nós três discordávamos era sobre o futuro. 

Para o Gato o futuro era perigoso, para mim, era uma aventura e Protegida não sabia que lado tomar. Até que um dia ela só tomou o meu.

Foi repentino para mim e para o Gato, que ficou furioso, confuso e depois foi encolhendo até virar o pompom que conhecemos hoje, mas para Protegida foi uma longa e dolorosa jornada. Espero que ela relate com mais detalhes futuramente, foi o momento mais importante da vida dela. Foi neste dia que ela adotou o adjetivo Peregrina.

Sim, Peregrina não é seu nome. Esta humana não ganhou um nome quando nasceu ou, se ganhou, não se lembra dele. Ela usa adjetivos para se referir a si mesma, mas não encontrou uma palavra para adotar como nome ainda.

Tudo isso aconteceu ao longo de um ano no Alasca. Depois que decidiu encarar o futuro como uma aventura, também partiu para vivê-la. Foi em suas viagens que mais aprendeu sobre magia, mas ela ainda raramente usa suas habilidades. Ela prefere ser "o mais normal possível", segundo ela mesma, mas tem horas que ela só não se aguenta e revela sua natureza mágica.

Íris não estava mais no Alasca quando voltamos e achamos você. Fona Esmeralda disse que ela foi para casa, no Congo. Eu... não sei se gostaria de vê-la novamente.

Mas se lembra da Garça? O animal alado de Peregrina que disse que comentaria depois?

Ela está em todos os lugares que visitamos, em pratos, placas, roupas, origamis e até como animal mesmo.
E toda vez que a avistamos, Peregrina só se fecha e vai na direção oposta.

Tem algo que ela ainda não está me falando, mas sinto que ela está reprimindo alguma sensação ou pensamento.

Ou até mesmo quem sabe...
Uma lembrança.

Eu não escrevo aqui há muito tempo...

Sou eu, a Raposa.

Acho que só nos falamos uma vez, certo, diário? Antes do Gato monopolizar você. E agora sou eu sua guardiã! Como o mundo dá voltas...

Mas estou nervosa, diário.

Peregrina está acordando a antiga forma do Gato novamente. Sinto isso no meu coração, que também é o dela. Este deserto... Exaure ela. Cada dia é uma batalha, cada noite é uma corrida. Não há tempo para Peregrina ser ela mesma, ela precisa ser uma fortaleza para nos proteger. Para se proteger.

Nos poucos segundos que tínhamos para meditar, a levei para as montanhas, para a praia, para cidades pequenas e grandes, mas Peregrina não parava de pensar neste maldito deserto!

Queria levá-la à floresta... Mas ela se recusa a ir mesmo em pensamento. Diz que é doloroso demais, assustador demais. Forçá-la só transformaria o Gato de volta no que era antes e eu não quero voltar para aquela tortura.

Mas apesar disso, diário, preciso confessar que minha intuição fala que Peregrina ouvindo um chamado. O chamado que ela esperou a vida inteira pra ouvir, pra ser sincera.

O chamado para casa.

Mas se este for o caso, tenho certeza de que ela está com medo. É natural sentir medo, mas Peregrina nunca conseguiu ter uma relação saudável com ele. O sentimento que deveria protegê-la a consome e transforma tudo em ameaças, 
acendendo o complexo de Deus do Gato e me deformando em um monstro.

Sinto que ela tem medo de deixar de ser Peregrina. Ela passou por um longo processo até formar esta identidade, mas... Ela não vai conseguir mantê-la para sempre. É da natureza humana estar sempre mudando. A alma dos humanos está eternamente em transformação.

Peregrina não pode ser Peregrina para sempre.

Seus sonhos estranhos pareceram piorar quando tentei falar sobre tudo isso com ela, então concordamos em não tocar neste assunto enquanto não sairmos daqui, mas fico grata que posso contar com você para me ouvir, diário. Ainda bem que Peregrina escreve em você, mas raramente o lê.

Até breve, diário!
Obrigada por ainda estar aqui, mesmo depois de todo esse tempo

Diário da Peregrina - Deserto #1

Há quanto tempo, diário!

Espero que não tenha se esquecido de mim, a pequena Protegida que se tornou Peregrina.

Acabei me perdendo em um deserto que não me deixa ter tempo para escrever. Não sei em que lugar do globo estou, mas esse lugar funciona como a Arena-relógio de Jogos Vorazes. Eu preciso seguir uma rotina bem rígida para escapar das armadilhas e conseguir usufruir dos recursos, tudo com hora marcada (embora não tão precisa).

Montada na Raposa, consegui achar um refúgio, um pequeno oásis no qual planejo ficar até precisar coletar mais comida. Talvez eu consiga descansar aqui por um mês ou dois, se tiver sorte e cuidado. Vejo que as palmeiras daqui estão florescendo, se os cocos amadurecerem antes da minha comida acabar, vou prolongar minha estadia.

Montei a tenda que carrego comigo desde que fui para São Paulo há tantos anos e organizei meus pertences como em um pequeno quarto. Não é perfeito, mas é aconchegante. Em parte por conta da Raposa, que é uma ótima cama, além de ótima amiga.

Mas não vim aqui apenas para dar olá, diário. Tenho tido sonhos estranhos, confusos, caóticos, até. Não me lembro de muita coisa, mas neles sempre vejo um gato com um sorriso doentio no rosto, como o gato de Cheshire, só que preto.

Me pergunto se o Gato está tramando alguma coisa. Ele está aqui, ainda em forma de pompom, dormindo no meu colo, ainda dentro da bolsinha redonda de pano que uso para carregá-lo. Raposa diz para nunca confiar totalmente na inocência que esta forma dele aparenta e eu a ouço. O Gato é inteligente, engenhoso e apesar de não ser mau e ter boas intenções, com frequência nos sabota. Ele teve origem da minha necessidade de controle sobre o futuro, afinal. Uma cruel ilusão que recorre a meios cruéis para não se quebrar.

Era esse o update que eu queria dar. Talvez eu escreva mais aqui, mas não prometo nada. Nem sei se conseguirei tirar as minhas "férias" do deserto (mas espero que sim, pela Deusa, eu espero que sim), mas a Raposa toma conta de você desde que te achei, então pode ter certeza de que não vou perdê-lo de novo.

Até a volta, diário! 

Peregrina