Acho que só nos falamos uma vez, certo, diário? Antes do Gato monopolizar você. E agora sou eu sua guardiã! Como o mundo dá voltas...
Mas estou nervosa, diário.
Peregrina está acordando a antiga forma do Gato novamente. Sinto isso no meu coração, que também é o dela. Este deserto... Exaure ela. Cada dia é uma batalha, cada noite é uma corrida. Não há tempo para Peregrina ser ela mesma, ela precisa ser uma fortaleza para nos proteger. Para se proteger.
Nos poucos segundos que tínhamos para meditar, a levei para as montanhas, para a praia, para cidades pequenas e grandes, mas Peregrina não parava de pensar neste maldito deserto!
Queria levá-la à floresta... Mas ela se recusa a ir mesmo em pensamento. Diz que é doloroso demais, assustador demais. Forçá-la só transformaria o Gato de volta no que era antes e eu não quero voltar para aquela tortura.
Mas apesar disso, diário, preciso confessar que minha intuição fala que Peregrina ouvindo um chamado. O chamado que ela esperou a vida inteira pra ouvir, pra ser sincera.
O chamado para casa.
Mas se este for o caso, tenho certeza de que ela está com medo. É natural sentir medo, mas Peregrina nunca conseguiu ter uma relação saudável com ele. O sentimento que deveria protegê-la a consome e transforma tudo em ameaças,
acendendo o complexo de Deus do Gato e me deformando em um monstro.
Sinto que ela tem medo de deixar de ser Peregrina. Ela passou por um longo processo até formar esta identidade, mas... Ela não vai conseguir mantê-la para sempre. É da natureza humana estar sempre mudando. A alma dos humanos está eternamente em transformação.
Peregrina não pode ser Peregrina para sempre.
Seus sonhos estranhos pareceram piorar quando tentei falar sobre tudo isso com ela, então concordamos em não tocar neste assunto enquanto não sairmos daqui, mas fico grata que posso contar com você para me ouvir, diário. Ainda bem que Peregrina escreve em você, mas raramente o lê.
Até breve, diário!
Obrigada por ainda estar aqui, mesmo depois de todo esse tempo