quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Mas afinal, o que aconteceu com Protegida?

Oi, diário, sou eu de novo, a Raposa.

Passei o dia inteiro lendo você, desde antes de você ser o diário de Peregrina, na época Protegida, e percebi que ela nunca registrou o resto de sua história em você, mas acho importante que ela seja contada a alguém, então farei isso por ela.

Protegida foi escolhida por Íris para ser sua aprendiz há 8 anos por ter um talento natural para cura. Com sua mestra, ela aprendeu os princípios básicos da bruxaria, os quatro elementos básicos: água, terra, fogo e ar, e mais os adicionais que são luz e trevas, como O Gato já anotou aqui.

Nem Íris nem Protegida eram ortodoxas quando se tratava de magia, então Íris a incentivou a experimentar com os elementos e ver o que acontecia. Protegida não conseguia fazer magia intencional em estado de vigília como Íris, então a mestra sugeriu então Íris sugeriu ensiná-la através de meditações guiadas.

A primeira meditação foi para achar seus quatro totens animais: de poder, alado, dourado e de sombra. Ela chegou a anotar todos nós na sua primeira página: o Gato, a Garça, a Águia e eu, respectivamente.

No entanto, só eu e o Gato fomos criados por ela. A Águia já estava presente como Dim, que a havia levado até Íris, e a Garça... Quer saber, eu vou deixar para falar dela depois.

Protegida achava que ter a presença de seu animal de poder e de seu animal sombra, os dois animais que mais falam sobre o ego de alguém, ajudaria a conseguir mais informações sobre si mesma. Foi assim que em uma meditação matinal, com um copo d'água e terra preta ela criou o Gato e em outra meditação naquela noite, com uma chama e um sopro, ela me criou. O Gato e a Raposa. Seus pensamentos e sentimentos, o reflexo de sua alma, bem ali, na sua frente.

A forma de concepção do Gato era fofa e tinha olhos verdes brilhantes, a minha era selvagem e com dentes amarelos enormes.

Não julgo Protegida por ter me colocado para fora assim que me viu.

Não sabia quem eu era ou onde estava, wuem dirá para onde ir, então fiquei do lado de fora esperando a porta abrir. Sentia uma forte conexão com minha criadora e meu irmão de criação felino que estavam lá dentro, mas anoiteceu e ela continuou fechada.

Pela janela acesa eu vi Protegida sentada brincando com o Gato, que se esfregava em seus joelhos. Sentia os pensamentos dela em mim. Eram tímidos e arrependidos. Ela não me odiava, na verdade, me achava linda, mas tinha medo de mim. O Gato, no entando, me lançou um olhar de lá de dentro e eu senti sua ordem:

"Vá para longe, sombra"

Então eu fui.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

...Desculpe, eu desviei da história principal. É que ainda... Dói. Espero que acate meu desabafo, diário. Já vou voltar para Protegida.

Depois de ser humilhada por uma galinha, eu resolvi voltar para a casa de Íris. Aquilo foi a gota d'água pra mim. Estava preparada para ser enxotada novamente, mas Protegida me recebeu de braços abertos desta vez. Pediu mil desculpas por ter me rejeitado... Peregrina ainda pede perdão por isso também.

Contei a ela minha situação com a galinha e ri muito quando vi que ela a dramatizou aqui como uma peça de teatro.

Agora sim, voltando a Protegida.

Ela treinava pouca magia, se atinha a meditações e divinações com cartas, mas conversava muito conosco sobre o que pensávamos de nós mesmos e do mundo. Mas nada do que falávamos era novo para ela. Nós não tínhamos mais lembranças sobre seu passado e nem pensamentos diferentes dos dela sobre o futuro. A única coisa que nós três discordávamos era sobre o futuro. 

Para o Gato o futuro era perigoso, para mim, era uma aventura e Protegida não sabia que lado tomar. Até que um dia ela só tomou o meu.

Foi repentino para mim e para o Gato, que ficou furioso, confuso e depois foi encolhendo até virar o pompom que conhecemos hoje, mas para Protegida foi uma longa e dolorosa jornada. Espero que ela relate com mais detalhes futuramente, foi o momento mais importante da vida dela. Foi neste dia que ela adotou o adjetivo Peregrina.

Sim, Peregrina não é seu nome. Esta humana não ganhou um nome quando nasceu ou, se ganhou, não se lembra dele. Ela usa adjetivos para se referir a si mesma, mas não encontrou uma palavra para adotar como nome ainda.

Tudo isso aconteceu ao longo de um ano no Alasca. Depois que decidiu encarar o futuro como uma aventura, também partiu para vivê-la. Foi em suas viagens que mais aprendeu sobre magia, mas ela ainda raramente usa suas habilidades. Ela prefere ser "o mais normal possível", segundo ela mesma, mas tem horas que ela só não se aguenta e revela sua natureza mágica.

Íris não estava mais no Alasca quando voltamos e achamos você. Fona Esmeralda disse que ela foi para casa, no Congo. Eu... não sei se gostaria de vê-la novamente.

Mas se lembra da Garça? O animal alado de Peregrina que disse que comentaria depois?

Ela está em todos os lugares que visitamos, em pratos, placas, roupas, origamis e até como animal mesmo.
E toda vez que a avistamos, Peregrina só se fecha e vai na direção oposta.

Tem algo que ela ainda não está me falando, mas sinto que ela está reprimindo alguma sensação ou pensamento.

Ou até mesmo quem sabe...
Uma lembrança.