Faz uma semana que Gatinho e Peregrina se fundiram e fui obrigada a ver minha doce e carinhosa Peregrina se transfigurar naquele... naquela... Aberração arrogante e agressiva que olha pra mim e fala comigo como se eu fosse lixo.
Igualzinho ao Gato.
Mas por mais que eu queira acreditar que isso tudo é mais um dos truques daquele bichano narcisista, as anotações bem-intencionadas de Gatinho me colocaram uma pulga na orelha dolorosa.
Tenho certeza de que minha intuição de que os medos de Peregrina estavam trazendo a monstruosidade do Gato à vida de novo estava certa, mas... não é só isso.
Agora convivendo com a fusão dos dois, consigo sentir o quanto o Gato é uma parte verdadeira de Peregrina. Não que eu não soubesse disso, afinal, ele é um espelho da alma dela tanto quanto eu, mas achava que era um espelho... Mais distorcido.
Protegida e Peregrina sempre foram pessoas empáticas e gentis, muito diferentes do cínico e cruel Gato, e sei como emoções ruins quanto a si mesma podem criar deformidades maldosas na realidade. Mas essa criatura... Ela faz Peregrina brilhar.
Ela tem confiança, força, coragem, elegância, carisma, inteligência, criatividade... Ela sabe que não deve perfeição a ninguém, nem a si mesma, e se concentra em ser boa o suficiente em tudo o que faz de um jeito encantador que transborda magia de um jeito que eu sonho em ver Peregrina fazer um dia.
Mas ela é má. Me destrata, me ignora, passa o dia todo caçando fazendo acrobacias para chegar na tenda, preparar as refeições e comer sozinha.
Eu lambo os ossos das caças.
No início eu comecei a procurar por mim mesma vegetais e frutas para comer, mas tenho ficado menor e mais fraca com o passar dos dias, com certeza pela influência de minha nova agressora, o que está dificultando mais ainda minha vida.
Ela não me deixa mais dormir na tenda, diz que deixo o ambiente mai cheiroso e cheio de pelos, então tenho dormido sozinha ao relento como no Alasca.
Meu pelos ficam cada dia mais ralos, fazendo as noites ficarem cada vez mais frias.
Mas o que mais me me machuca é que entendo que isso é obra da própria Peregrina. É ela a responsável não só da de suas atitudes absurdas de agora, mas de Gato no passado também.
No passado, Gato havia dito que Protegida não era tão ingênua quanto eu achava que ela era. Agora entendo o que ele quis dizer: Peregrina usa seus pensamentos para se mutilar e, através da mutilação, se proteger de dores que vêm de fora.
Parece contraditório, mas isso tudo vem da promessa do lugar bom após a morte que a Igreja e Aqueles que falavam em nome dos espíritos fizeram a ela em seus anos mais imaturos. Ela aprendeu a que a tortura a faz ser digna de salvação e a usa de refúgio para quando está com medo.
"Quanto mais você se entrega ao Temor e aprende o quão imperfeita e suja sua alma é, melhor vai ser o êxtase dela quando seu corpo não prover mais por você", era o que diziam a ela.
Mas o âmago de Peregrina é mais forte do que esta mentira, que, embora siga acreditando, tem em si o fogo da rebelião e quer iluminar o mundo do jeito que é, não importa o que disseram sobre Deus.
O problema é que a rebelião vem junto da conhecida punição de expulsão do paraíso, como alguns autores contam sobre mulheres e anjos...
O Gato era a persona de um castigo que Protegida se impunha, que reverberava em mim, que também sou ela.
Agora esse monstro são eles abraçando o inferno e sumindo nele.
O que me preocupa é que o monstro se deu um nome: Lunna. Nomes têm poder, ancoram nuvens de abstrações em algo concreto que tem forma e som fixos e nem Peregrina e nem Gatinho merecem ficar presos sendo aquilo.
Eu preciso fazer alguma coisa, diário. Preciso alcançar Gatinho, falar que ele está se dissolvendo e dissolvendo Peregrina em um demônio ao invés de ajudá-la a enfrentar seus fantasmas! Preciso de alguma forma salvá-los deles mesmos!
...Meus pensamentos tomaram forma agora e o nome Kitty veio para mim.
Eu sei o que preciso fazer, diário, muito obrigada por me ajudar a pensar... De novo.
Vai ficar tudo bem.