Diário, eu não consigo descansar.
Mesmo aqui, onde eu tenho água e comida disponíveis, não consigo me recuperar do cansaço. Ora é quente ora é frio demais e o barulho da fauna daqui me incomoda o tempo inteiro, além de eu não ter conseguido dormir direito também. Acordo cansada após viver o caos dos meus sonhos, de ver aquele gato com um sorriso distorcido me encarando.
A verdade, diário, é que eu só queria ser outra pessoa. Uma pessoa que não se sentisse incomodada com tudo à sua volta e que soubesse como sair deste maldito deserto usando magia.
Eu deveria ter estudado mais. Eu tive a oportunidade perfeita de aprender tudo o que quisesse como aprendiz de Íris, mas a disperdicei tentando achar um passado do qual vivia melhor sem saber qual era. Um ano, um ano com possivelmente a feiticeira mais poderosa e criativa do planeta e eu só aprendi a meditar e ler cartas. Tudo bem que eu trouxe meus animais de proteção para este plano logo no início do treinamento, mas lembrar deste meu feito só me faz pensar na feiticeira foda que eu poderia ter me tornado se eu só tivesse estudado enquanto eu ainda não lembrava...!
Mas eu tinha medo. Medo de fracassar. Eu nunca me senti à altura das artes mágicas, elas sempre pareceram estar num patamar alto demais para que eu pudesse aprendê-las de fato. No entanto não consigo me livrar delas também: estão sempre me convidando, me chamando, me puxando. Eu fui abençoada com mãos que curam, minha Deusa! Mas de que adianta ter qualquer talento se eu não posso lapidá-lo, cacete?!
"Mas Peregrina", você diria se pudesse argumentar comigo, "se você foi abençoada com talentos mágicos, será que não é um sinal de que você, talvez, esteja destinada a se tornar a feiticeira foda que você tanto quer ser!"
Ah, diário... Eu sei que não vou me tornar essa feiticeira.
Pelo menos não mais.
Minha última chance estava na minha juventude sem memórias nos cuidados de uma bruxa, minha chance dourada de alcançar meu horizonte mágico. Mas não, eu tive que ir atrás da toca do coelho branco, ou melhor, do ninho da águia.
Todo o tempo as respostas que eu buscava estavam ali com Dim, a águia amiga de Íris. Por ter a mesma essência do meu animal dourado, elu sabia de onde eu vinha, quem eu era antes do Alasca, como eu cheguei até ali e como eu perdi minhas memorias. Elu também me avisou que eu não iria gostar de saber, mas lhe supliquei todos os dias por meses e meses até que elu não aguentou mais e cedeu.
E eu realmente não gostei de saber.
Lembrei que sou uma criança roubada. Nasci em um povo cujas tradições mágicas não pude aprender pois fui tirada dele ainda pequena para crescer rezando na Igreja.
Todas as minhas habilidades foram bloqueadas pela dita luz de um deus que tem fome de almas. Fui compelida a aceitar Sua proteção divina quando eu não sabia o que isto significava. Diziam estar me purificando, garantindo que eu fosse para um lugar bom quando meu corpo não suportasse mais meu espírito.
O que aconteceu foi que meu espírito viveu esmagado em um corpo submetido às sombras de uma Igreja que era um complexo de construções que serviam de templo, escola e casa, debaixo dos olhares sinistros de estátuas de pessoas santificadas que me puniriam se eu não obedecesse ao Senhor.
Minha única escapatória eram meus sonhos. Dormindo ou acordada, meus sonhos sempre me protegeram da dor diária que era servir àquele Deus. Sempre me senti protegida com o frio, então me imaginava em um lugar com muita neve e um céu limpo para que pudesse ver as estrelas. O Alasca calhou de ser um lugar que eu conhecia que se encaixava bem nessa descrição, então passei a chamar assim meu lugar seguro imaginário.
Mas a batalha eu travava com a minha realidade imposta definhava meu corpo e minha mente até que as ideias de destruir meu corpo para ir logo ao lugar bom que me prometeram quando fui entregue à luz do Deus começaram a ser tentadoras demais.
Me lembro de subir no telhado de uma das altas torres pontudas da igreja, dar um passo para frente e não sentir mais o chão.
Mas gravidade me puxando para baixo foi a pior experiência da minha vida até aquele ponto. Tudo porque eu sabia do impacto que eventualmente chegaria. No momento que o desespero bateu, senti uma pressão no meu peito tão forte que achei que me mataria antes de eu chegar ao chão, mas então uma luz dourada me cegou e comecei a planar ao invés de cair.
Quando dei por mim, estava em cima de uma águia dourada gigante conectada ao meu coração por um fio brilhante também dourado.
Lembro-me de chorar e abraçar a águia, que me levava para longe da Igreja. Naquela hora eu não me importava para onde estávamos indo, só a agradecia repetidamente por ter me salvado da besteira que havia feito em um momento de fraqueza.
Não sei por quanto tempo voamos, mas quando pousamos, eu estava deitada na neve olhando para um céu estrelado, sem qualquer memória do que havia acontecido antes. Fiquei observando as constelações caminharem pelo céu até o sol ofuscar a luz delas.
Depois vi uma águia de verdade na neve, a segui... E o resto eu já te contei.
Se eu tivesse conseguido aprender magia enquanto eu não me lembrava, quem sabe eu conseguiria burlar meu passado e ter um futuro feliz enquanto estou viva, mas... Talvez mei próprio medo de estudar magia seja um indicativo do inegável.
Por mais que eu ame magia, por mais que eu tenha algum conhecimento e até alguma prática...
Eu fui purificada pela luz de Deus.
Eu nunca serei a bruxa que eu sonho em ser.