Minha mãe diz que tenho olhos de
Esmeralda, esmeralda
As palavras de uma música antiga que sei a letra de cor. Eu era muito pequena, não sei como ainda me lembro...
Minha mãe diz que meus são
Como as penas de um maracanã
Como a mata brilhante sob a luz da manhã
Eu amava a floresta. As florestas. Lembro de ter nomeado todas as plantas que conseguia reconhecer, desde as árvores mais altas até a menor das ervas. Minha mãe dizia que isso era sinal de que eu poderia ter talento pra ser curandeira um dia. Nosso clã cultivava magia tradicional e perceber inclinações naturais era útil para a iniciação mágica das crianças.
Fala meu pai que meu cabelo é
Como as ondas lá do mar
Fala meu pai que carrego em mim
Proteção de Oxum e Yemanjá
Que seus cantos sempre vão me guiar
Eu não tinha um pai biológico, mas eu tinha um pai adotivo. Ele era babalorixá. Junto com minha mãe, especulava sobre meu futuro. Segundo ele, eu tinha mãos de feiticeira e poderia conquistar o que quisesse se soubesse o que estava fazendo.
Eu sou toda uma história ancestral
Que vai da terra ao plano astral
Todos que passaram pelo meu jardim
Hoje também fazem parte de mim
Espero que eu também seja parte deles...
Minha avó diz que fui feita pra
Viajar e explorar
Minha avó diz que meu caminhar
A novas terras vai me levar
E meus pés vão dançar sob a luz do luar
Nós nunca passávamos muito tempo no mesmo lugar. Estávamos sempre na estrada, indo de país a país, de continente a continente, às vezes bem recebidos e às vezes não.
Muitas das vezes não.
Minhas avós (que também não eram avós biológicas, mas de consideração) não me deixavam andar sozinha fora do acampamento com medo do que os que não eram dos nossos poderiam fazer comigo.
Meu amor fala pra eu não parar
De tentar alcançar
Os sonhos que fazem minha alma cantar
Que os bons ventos vão me ajudar
A chegar aonde preciso estar
Essa parte era mais uma manifestação para o futuro, eu não tinha um relacionamento romântico com ninguém naquela idade, mas eu via os mais velhos da minha comunidade fazendo suas declarações e queria isso pra mim no futuro.
Eu sou toda uma história ancestral
Que vai da terra ao plano astral
Todos que passaram pelo meu jardim
Hoje também fazem parte de mim
A música era animada e eu dançava na grama com outras crianças ao redor de fogueiras nas épocas frias e na chuva nas épocas quentes.
Era a felicidade em vida que a Igreja prometia em morte
Queria ter me tornado a feiticeira curandeira que minha mãe e meu pai achavam que eu seria. Gostaria de ter aprendido com minhas avós e dançado com meu amor.
Meu clã era minha família e com eles eu pertencia, até um grupo de fiéis passar por nós e decidir que não.
Lembro de que nos chamaram de bruxos malditos que mereciam o inferno. Atearam fogo em algumas coisa, uma tenda ou uma mesa de comida, e uma mulher pegou minha mão e me levou.
Eu não gritei.
Eu não tentei fugir.
Eu só fui com ela para onde ela quis me levar: a Igreja.
Reprimo essas lembranças há anos por serem obviamente dolorosas, mas Raposa fez bem em me trazer aqui. Esse passado, essa ferida, faz parte de mim e só vou poder curá-la se estiver frente a frente com ela.
Hoje eu dei um passo, diário. Pequeno, mas foi um passo. Reconheci do que estava fugindo, mesmo que fizesse meu peito arder.
Eu conto isso como uma vitória.