Depois de 21 dias, voltei a ser só eu, Peregrina. Gostaria de dizer que estou bem, mas só me sinto confusa. Espero que escrever em você me ajude a entender o que estou sentindo agora.
Ser Lunna era divertido. Eu me sentia confiante, poderosa e linda, como uma deusa antiga há muito tempo presa que encontrou sua liberdade. Mas todo esse poder tinha um preço que nunca valeria a pena pagar.
Estar vulnerável é uma necessidade humana, para o bem ou para o mal. Perder a habilidade de baixar a guarda torna qualquer um num monstro, que foi o que eu me tornei. Raposa mostrou a Lunna seu verdadeiro reflexo e Gatinho se separou de mim assim que o viu. Disse que eu e Raposa deveriamos passar um tempo juntas e assim, nos tornamos um ser cujo único conhecimento era seu nome: Kitty.
Um nome estranho pra uma humana e uma Raposa, mas era nossa única certeza. Minha teoria é que vem de Kitsune, que é raposa em japonês. Existem lendas japonesas antigas sobre raposas com várias caudas que se disfarçavam de mulheres para enganar pessoas. Faria sentido, mas é só uma teoria (uma teoria bem embasada, obrigada por ler).
Nesses últimos 15 dias, eu e Raposa passamos manhã e noite tentando entender quem era Kitty. Eu não me sentia como outra pessoa como quando era Lunna, só me sentia eu mesma junto da minha melhor amiga, com o detalhe de estarmos dividindo um corpo com orelhas e cauda de raposa e um cabelo de 2 metros de comprimento (pesava, mas era macio!)
Nós trabalhávamos muito bem juntas. Não tínhamos problemas para nos mexer, comer, dormir e nem fazer necessidades fisiológicas. Me pergunto se é assim que gêmeas siamesas vivem, duas pessoas trabalhando juntas para administrar um corpo que é a casa conjunta das duas.
Mas Kitty, ao contrário da imponente Lunna, era estranhamente neutra. Nada para ela parecia especial ou particularmente interessante. Ela existia no mundo, mas o mundo parecia não existir nela. Ser Kitty era como usar uma máscara e não impersonar ninguém. Um disfarce perpétuo para se esconder de si mesma.
Então eu propus à Raposa uma bateria de testes para ver se esse disfarce caía. Senti ela tímida num primeiro momento, mas depois se animou e aceitou.
Nossa primeira e única experiência foi música. Escolhemos esse assunto porque era o único que tínhamos uma certa variedade (achei essa relíquea "MP4" enquanto estava no Saara, Rio de Janeiro e ficamos ouvindo numa noite na tenda) já que não temos o luxo de ter comida de verdade e outras roupas a não ser nosso kimono rosa (o top, minha calça e meu colete que voltei a usar quando nos separamos. Eu tinha mais roupas, mas as peças foram sendo destruídas aos poucos por esse maldito deserto).
Anotei em outro caderno (não tão importante quanto você, diário, não se preocupe) os resultados:
Tudo estava indo bem até a gente ouvir Defying Gravity da Idina Menzel e da Kristin Chenoweth. Raposa se emocionou com a música, principalmente por ser um dueto, e eu a acompanhei. Fizemos tudo na tenda flutuar, foi literalmente mágico. Na parte em que a Elphaba convida a Glinda para ir com ela, então, nós mesmas começamos a flutuar. Era como se a Raposa estivesse cantando pra mim, Peregrina.
Foi aí que eu vi que isso não ia acabar bem.
Glinda rejeita a oferta de Elphaba logo depois de cantar o refrão com ela. As duas decidem seguir caminhos separados no musical e eu senti quando o baque veio em Raposa.
Eu vi as memórias. Abandono, rejeição, invalidação, inferiorização... Ela nunca desistiu de mim, mas também nunca conversamos sobre o quanto ela sofreu.
E eu nunca tive a chance de pedir desculpas.
Foi então que deixamos de ser um "nós" e nos tornamos um "eu". Foi então que o mundo passou a existir em Kitty.
Completamos a fusão.
E doeu.
Ser Kitty em sua completude foi como ser do tamanho do mundo e estar em uma lata de ervilha.
Aterrorizada, sufocada, presa.
Era ser um arco-íris em uma realidade em preto e branco.
Excluída, solitária, louca.
Era lutar para não ser vista como uma ameaça por causa de um universo que não me acopla!
Embalada pelo final glorioso da música, comecei a sentir uma força desconunal saindo do meu peito. Pela abertura da tenda, via o Oásis sumimdo em uma luz verde brilhante e então voltando. Sumindo e voltando, sumindo e voltando, até que a o último acorde da música estourou e eu também.
Acordei ainda dentro da tenda como Peregrina e vi Raposa numa forma pequena e desgranhada do lado de fora contrastando com uma mata verde e densa de uma floresta.
O último lugar que eu queria vir.
Acho que eu gritei de raiva. Ou de medo. Meus olhos ainda estão ardendo um pouco de tanto que chorei. Raposa deve estar achando que estou zangada com ela ou que estarmos na floresta é culpa dela, mas eu quis vir aqui tanto quanto ela.
Depois de contar a história toda, está claro o que preciso fazer:
Preciso encarar a mim mesma.