quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Noite #2- Gatos sabrn sobre magia

      Não posso culpar Protegida por escrever tanta baboseira. As ideias vêm e, de repente se misturam, levando o escritor por uma linha de raciocício que ele nunca pensou que seguiria. E então, do mesmo jeito que vieram, elas se vão, deixando para trás apenas o escorioso resultado final...  Ter um diário é mais complicado do que imaginei. Não é à toa que ela passou tanto tempo longe dele, preferindo ler histórias de outras pessoas ao invés de relatar a sua. Não há problema, ajudarei a pobrezinha.

       Sei no que está pensando, leitor. "Gato, estou ciente de que você é altamente inteligente, mas como vai manter seus textos em segredo de Protegida se ela também manusea este diário?". Ora, meu caro, eu conheço Protegida, um dia fui parte dela. Aquela moça não suporta sequer olhar para o que escreve, então sempre deixa um marcador de página na folha seguinte a que acabou de escrever. Desde que não me alongue muito em minhas narrações, meus textos passarão despercebidos à ela.

       Sobre a história contada até aqui, um resumo: Protegida acordou na neve um dia e viu o Lobo machucado. Ela o curou e depois seguiu Dim, a águia, até a casa de Íris, a bruxa maluca que a instruiu com sua magia.

        A base da magia são os quatro elementos principais, fogo, terra, ar e água e dois secundários fundamentais: luz e trevas.
Eles se misturam e se ramificam, criando uma infinidade de novos elementos disponíveis para os bruxinhos brincarem. Sei disso pois foi de um jeito parecido que eu e Raposa fomos criados. Misturas de pensamentos e sentimentos que se intensificaram tanto a ponto de criarem consciência e personalidade.

       Alguns bruxos já nascem com talentos específicos, como a habilidade de cura de Protegida, seja por herança familiar, bênção, maldição, grandeza de espírito entre outros infinitos fatores. Já outros precisam se esforçar muito para serem bons com algum elemento ou, dependendo do ponto de vista, têm a sorte de poderem escolher o que querem aprender a dominar.

       Fiquei pensando nisto enquanto andava pelos telhados das humildes casas da vila. Tudo possui dois lados, depende do observador escolher para qual olhar. Ter talento pode facilitar o estudo para alguns, mas para outros, vetar possibilidades. Ser um gato me permite ter uma visão privilegiada do mundo por estar sempre no alto, mas também me obriga a ser visto como um ser maldito que, supostamente, desrespeitou o Messias em sua dolorosa caminhada com a cruz. Injustiça! Nunca tive intenções de prejudicar alguém, nem mesmo aquela Raposa infernal. Não é por ter inteligência que não... Tenho um coração. Eu faria qualquer coisa por Protegida. Eu sou leal a ela, não à comida que ela me dá. Eu protejo ela, não a casa. Eu sou amigo dela, e não um interesseiro qualquer. Eu me importo! Eu sou bom, e não mau! Não suporto mais ouvir que sou maligno! Eu sou bom, eu sou bom, EU SOU BOM!!!

       Oh, desculpe-me, não vou mais incomodá-lo com meus devaneios, querido leitor, não se preocupe. Este diário sequer é meu, nem deveria escrever tantos pensamentos íntimos. Além disso, está ficando tarde. Boa noite.