Acabou de anoitecer e já vi que vai começar a nevar... Ah, a nve me lembra do dia em que cheguei aqui, quando vi aquela águia me encarando...
Oh, é mesmo, esqueci de falar sobre o resto do que aconteceu quando conheci Íris e Dim!
Bem, pelo o que escrevi aqui, já deu para notar que nosso primeiro contato não foi um dos melhores. Mas na hora do chá, ela se revelou ser uma pessoa gentil e um tanto... Excêntrica.
- E então, querida, de onde você vem?- ela me perguntou enquanto misturava açúcar em meu chá.
- Eu não sei bem...-respondi, sem jeito.- Um dia acordei na neve e vi sua amiga águia me observando. Lembro também de um lobo ferido que ajudei, mas depois jugiu, e, além disso, mais nada.
- Nossa, então você só está por aqui há um dia? Bem, neste caso, seja bem-vinda ao Alasca!
- Alasca?!
- Sim, você está na área "não civilizada" do Alasca. O máximo que vai encontrar por aqui são algumas vilinhas de pessoas que não gostam muito do resto do mundo.- ela pôs minha xícara na mesa e foi pegar a sua.
Mas de repente uma ideia passou como uma bala pela minha cabeça.
- Íris...-disse com a voz trêmula- Eu morri?!
Ela riu.
- Depende do que morrer significa para você.
Como não gosto de falar sobre este assunto, achei melhor mudar o rumo da conversa.
- Mas o que você está fazendo no Alasca longe da civilização?
- Essa é uma história muito, muito, muito, muito, muito, muito...
E ela continuou. E continuou. E continuou. Ah, deu pra entender!
Lancei um olhar para Dim, a águia, que pareceu entender meu sinal e deu um berro, assustando Íris.
- AAH! Opa, exagerei? Hihihi. Enfim, é longa a história. Bem longa. Mas o grito da Dim me fez perceber que ainda não sei seu nome, meu anjo.- Íris tomou um gole de seu chá.
- Bem... Eu não sei se um dia sequer tive um. Eu sei que poderia escolher qualquer nome para ser meu, mas ainda não sei um que sirva pra mim, entende?
Ela me olhou nos olhos por um momento, um pouco surpresa, eu diria. Ela se virou para Dim, que estava com os olhoa fechados, tirando uma soneca (ou talvez só estivesse fingindo).
- Você tem uma mentalidade interessante para uma menina da sua idade. Oh, desculpe, quantos anos você tem mesmo?
Dei um sorriso amarelo em resposta.
- TU TÁ DE BRINQUEICHON UITI MI, NÉ?! O que você sabe sobre si mesma então?
- Hum... Eu sei que eu sou uma garota. Ah, e que curo lobos Ah, e eu amo ciência! Qualquer tipo de ciência!
- Ah, sim, eu adoro ciência também, principalmente química... Mas, espera, você disse que cura lobos?- ela pareceu confusa.
- Sim, descobri isso ontem! Sabe aquele lobo que disse que ajudei e que depois fugiu. Ele estava muito machucado, parecia que seu tórax tinha sido cortado. Mas então eu pus a mão e...
- Cicatrizou!- ela completou, com os olhos brilhando de euforia- Aaaaaaaaahhhhh, temos uma curandeira natural por aqui, minha gente!
- Ha ha, e existem curandeiros artificiais?- perguntei ironicamente.
- Mas é claro que sim!- ela respondeu, com a voz tão fina quanto um apito- Eu sou uma, inclusive. Não curo com as mãos, mas sei fazer poções que aliviam febre e dores em geral, o que até que serve quando eu não confundo sódio com enxofre e acabo me engasgando com aquele troço, hihihihihi. Os dois são tão parecidos...
- Mas então você quer dizer que eu tenho uma espécie de "dom"?
- Isso mesmo. Mas só uma perguntinha, curandeiros não tomam chá na presença de outras pessoas?
Ela apontou para minha xícara ainda cheia de chá de hortelã com o açúcar todo retido no fundo. Já estava frio e ainda não tinha tomado uma gota.
- Relaxa, deixa que eu esquento pra você- ela pegou a xícara e pôs o líquido em uma panela pendurada acima do fogão à lenha.
- Mas, Íris, qual é o seu dom?
- AH, ATÉ QUE ENFIM VOCÊ PERGUNTOU!
Com isso, ela levantou os braços e fez surgir uma ventania na cozinha. A mesa, a cadeira e eu estávamos flutuando, junto com vários outros utensílios do cômodo. Dim começou a berrar, devia estar mesmo dormindo, e a bater suas asas loucamente, tentando sair de lá, mas conseguiu apenas ficar girando no lugar por causa daquele furacão repentino.
- Você controla o ar?!- gritei para Íris, que, apesar da distorção na minha voz causada pelo vento, conseguiu entender.
- EU CONTROLO TUDO!!!- ela sorria de orelha a orelha.
- ÍRIS, PARA!- uma voz grave e desconhecida desesperadamente pediu.
Ela arregalou os olhos e pôs as mãos na boca, deixando tudo o que estava flutuando cair. Meus ouvidos sentiram dor antes mesmo de ouvir a terrível sinfonia de panelas batendo, pratos e copos se quebrando, talheres despencando e das cadeiras e da mesa aterrisando no chão com a graça de um hipopótamo.
- Opa. Acho que me empolguei um pouquinho... De novo.- ela mordeu o lábio e baixou o olhar.- É que eu queria que você ficasse animada com o que a magia nos permite fazer.
- M-mas eu estou! Aquilo foi demais! Desastroso, também, mas nossa, você fez tudo aquilo voar! Uma pena que deve estar tudo quebrado agora...
- Ahhahaha, tudo bem- ela sorriu, sem graça- Eu conserto depois, é sério. Mas... O que você acha de ficar um tempo por aqui e, sabe... Fazer de você minha...
- Aprendiz? Seria maravilhoso!- comecei a me sentir mais à vontade no ambiente.- Mas olha, eu agora queria saber de quem era aquela voz que veio do além gritou para você parar. Ha! Aquele foi "deus"?- brinquei.
- Ah, não aquela foi a Dim. Ela me avisa quando estou exagerando ou quando me disperso demais.
- Como assim?! A águia falou?!
- Eu te disse que elas falam quando têm algo para dizer. Vem, eu vou te mostrar o quarto de visitas, você precisa descansar. Quero conversar com você sobre algumas coisas amanhã...
Ela me levou a um pequeno cômodo no andar de cima, que tinha uma cama próxima à janela, um abajur e uma estante de livros junto à uma cômoda. Estava tudo um pouco empoeirado, mas era aconchegante. Ela tirou a poeira da cama com um balançar de mãos e eu imediatamente me joguei ali, me dando conta do quanto estava cansada.
Puxei o cobertor e olhei para Íris, que parecia satisfeita ao ver que estava confortável.
- Desculpe se eu pareço meio desesperada para ter uma aprendiz... É que faz tanto tempo que não vejo outra bruxa! Eu tenho tanto para te ensinar e tanto para aprender com você!... Ah, e eu prometo que catástrofes como as de hoje na cozinha e sustos como a tal "sopa de almas" não vão mais acontecer, ok? Sinto muito que eu tenha causado uma impressão tão ruim assim, anjinho, eu às vezes consigo ser um verdadeiro desastre... Mas, olha, eu prometo a você que estará a segura aqui, sim? Eu e Dim queremos que se sinta em casa enquanto estiver conosco. Vamos ter bastante tempo para conversar e nos conhecer melhor depois, mas tente dormir um pouco. Posso te fazer outro chá, que tal?
- Por que não...?- bocejei.
- Oh, eu não paro mesmo de falar, não é? Hihihi, já vou te deixar em paz, não se preocupe, estrelinha.
- Estrelinha?...
- Ah, desculpe. Eu entendo se você não gostar de apelidos...
- Não, não... Eu adorei.
Íris deu um sorriso para mim. Não aquele sorriso amarelo ou aquele outro eufório, mas um doce e gentil. Seus olhos cor de âmbar de repente adquiriram um brilhante e suave tom de azul. Se curvou, deu um beijo de boa noite em minha testa e foi andando devagar para trás, parecendo emocionada. Pôs a mão na maçaneta e me deu mais um sorriso antes de fechar a porta. Fechei meus olhos e adormeci rapidamente.
