terça-feira, 3 de novembro de 2015

Então, como eu começo esse troço?

     Querido diário... não, não, assim não.

     Diário querido? Não, pior ainda...

     Dia #1. É, assim está melhor.

     Decidi finalmente começar este diário porque não consigo mais confiar na minha memória para lembrar do que aconteceu comigo. Tenho medo de pensar que aquilo tudo foi só um sonho ou uma fantasia da minha cabeça. Neste momento, estou em uma vila, dentro de uma casa simples e quente, com uma cama para dormir e tranquilidade para escrever. Raposa está dormindo em frente à lareira e Gato, deitado no meu colo, está curioso para saber o que estou escrevendo, mas não vou deixá-lo tocar neste caderno tão cedo.
     Foi tão gentil da parte de dona Esmeralda, amiga de uma amiga minha, nos deixar ficar aqui por uns dias... A comida é maravilhosa, os vizinhos são simpaticíssimos, o ambiente é confortável... Nem parece que há dois dias, estava perdida no meio de uma nevasca terrível e, muito menos, que há um mês, mal sabia como havia chegado aqui no Alasca... Mas não que eu saiba agora.
    Minhas memórias mais antigas são de levantar do chão frio e ver um lobo no meio da neve, deitado, machucado, respirando com dificuldade. Cheguei perto dele e toquei em sua ferida, que foi cicatrizando aos poucos com meu toque. Não sei como fiz aquilo, sequer sabia que tinha poderes de cura...
     Quando curado, o lobo olhou para mim e levantou-se às pressas e correu o mais rápido que pôde até sair de meu campo de visão. Fiquei parada por alguns segundos quando percebi, com o canto do olho, que uma águia me observava. Trocamos um longo olhar até ela levantar voo subitamente. Por curiosidade ou, talvez, por puro instinto, corri atrás dela.
     Meus pés eram como asas, mal tocavam o chão. O ar frio fazia meu peito arder, mas mesmo assim não sentia vontade de parar de correr. A águia, por sua vez, sempre que iria mudar de direção, grasnava para me avisar, como se estivesse mesmo querendo me guiar a algum lugar.
      Avistei uma pequena e aconchegante casa de madeira, com o teto coberto de neve e fumaça saindo da chaminé. A águia entrou por uma janela aberta, que se fechou logo após sua entrada. Diminuindo o passo, subi as escadinhas que levavam até a porta de aparência rústica, porém simples. Bati uma vez e ela abriu-se sozinha. Devia estar destrancada. Esquecendo-me de meus modos e me entregando à ansiedade, adentrei no local, fechando a porta atrás de mim por costume.
      Estava escuro. O fogo da lareira estava baixo demais pra iluminar o ambiente, mas era o suficiente para mantê-lo quente. O silêncio era quase absoluto, exceto pelos estalos da madeira em combustão.
       Ouvi passos e depois uma risada estranha:

-Oooohohohohohohohohohoho, ora ora, você pensa que as coisas são simples assim?- disse uma voz rouca e macabra.
-M-me desculpe, eu cheguei a bater na porta, mas...
-Não estou falando disso. Digo que quando alguém diz que está errada, você simplesmente muda de direção sem mais nem menos, como uma criada. E quanto ao que você quer fazer? Seu destino se invalida tão fácil assim?
-O que?...
De repente, as chamas aumetaram, revelando uma sala repleta de quinquilharias velhas e empoeiradas, e aquilo que era só uma voz, na verdade, era uma mulher caduca, enrolada em uma manta escura, extremamente parecida com a madrasta da Branca de Neve.
-Aahahahahhahahhaahahahahahhaha-gargalhou- é por isso que sua aparência é tão...Frágil. oooohohohohohohohohohoho, você pensa que as coisas são simples assim? Alguém diz que você está errada e você simplesmente muda de direção sem mais nem menos? E quanto ao que você quer fazer? Seu destino se invalida tão fácil assim?  Aaaahahahahhahahhaahahahahahhaha, é por isso que sua aparência é tão... Frágil. Olheiras fundas, pele pálida, olhar opaco, sem nenhuma ideia de para onde está indo.
-Como a senhora-
-O que foi?-ela me interrompeu- Cansada de andar? Procurando alguém para obedecer? Ou finalmente se tocou no que fez consigo mesma?
-O que eu fiz...
-Ohohohohohohoho, que trágico! Que trágico! Porém...- ela me olhou com uma expressão curiosa e, por um momento, pensei ter viato a cor de seus olhos mudarem de negros para âmbar.-Mais uma alma perdida para minha sopa! Alguém tão fraca como você deve servir de refeição para alguém maior, mais forte e, principalmente, com fome.
-O quê?!- gritei- Você vai me matar?! Mas, mas... Eu pensei que... Aquilo tudo que a senhora disse, eu... Eu achei que a senhora...
      Não consegui segurar as lágrimas. Estava assustada, confusa e não queria morrer tão cedo. Botei as mãos sobre o rosto e ajoelhei-me no chão, esperando pelo pior.
      Mas o que ganhei foi um afago na cabeça.
-Não se preocupe, querida, não precisa chorar.- uma doce voz, quase que como uma melodia, disse- Isso foi apenas para testar sua alma. Ela é bem humilde, devo dizer. Droga, ela acertou de novo...
       Levantei a cabeça e me deparei com uma moça linda, morena, de olhos cor de âmbar e longos cabelos castanhos ondulados me olhando um pouco sem jeito. Ela usava um chapéu pontudo velho e surrado com uma estrela na extremidade. Suas roupas eram escuras com detalhes excêntricos, como o pato amarelo que estava no lugar da fivela de seu cinto.
       -Quem acertou de novo? E como você sabia daquilo tudo sobre mim?

- Então, foi essa minha amiga me contou sua história antes de você chegar aqui! Ela nunca errou quando disse que encontrou um feiticeiro de luz, mas eu duvidei de que ela fosse tão "infalível" quanto ela diz que é. Então eu fiz aquilo para ver se você era legal mesmo!
       Ela deu um sorriso visivelmente forçado enquanto observava minha reação. Ela era definitivamente esquisita, mas nada com que eu não podesse me acoatstumar.
-Mas que amiga é essa que você tanto fala?
-Ora! A águia que te trouxe aqui, trouxa!- ela bateu na testa com o punho fechado, fazendo um sinal de que aquila era um pergunta idiota.
-Mas... Águias não falam.-constatei humildemente
 -Hihihi, elas falam sim, se você quiser ouvir.-ela esticou um dos  raços e sua amiguinha pousou em seu pulso. Pensei no quão dolorosas seriam aquelas garras.
        Ela a trouxe para perto de seu rosto e a ave chegou perto de seu ouvido, como se fosse contar-lhe um segredo.

-Oh, mas que modos os meus!- a moça quase berrou- Obrigada por me lembrar, Dim. Deixe-me apresentar-me! Meu nome é Claewacavlalenjuloudraislictorcimine, mas pode me chamar de Íris. Já olhou bem para meus olhos? Eles mudam de cor.- ela olhou fixamente para mim e era verdade! O âmbar que era negro agora adquiriu um leve tom de violeta.
-E eu não sou tão velha quanto parecia ser.-continuou- Eu sou muito mais! Hihihihi. Mas então? Aceita um café ou uma xícara de chá? Não, não, espera, deixe-me ver... Você é intolerante à cafeína, mas adora chá de... Hortelã, certo?
-Sim!
-Hortelã com bastante açúcar!
-SIM!!!
-OH YEAH! PONTO PRA MIM, DIM!-Ela fez uma dancinha da vitória enquanto ia para a cozinha preparar a água. Dim, a águia, parecia quase envergonhada. Ela voou para uma casinha de palha em um canto da sala, que eu deduzi ser seu ninho.

       Apesar de ter um jeito peculiar, Íris é boa. E sábia. Mas vou ter que escrever sobre ela e Dim um outro dia. Dona Esmeralda fez macarrão com ovoe está me chamando para jantar! E de sombremesa, tem brigadeiro, mas sem granulado. Ela acabou comendo tudo sem querer na hora de confeitar os docinhos. Dona Esmeralda adora granulados! No Natal, vou arranjar uma jarra cheia daquilo para dar de presente para ela. Aaaah, ela vai adorar!!!